Boletim Neuro Atual, Vol. 2, No 2 (2010)

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Boletim Neuro Atual- Resenhas de Trabalhos Científicos em Neurologia.

Volume 2, Número 2, 2010



Is migraine a dangerous disease?” Hans-Christoph Diener and Judith U. Harrer. Neurology 2010 74: 622-623


Migraine and cardiovascular disease: a population-based study”. Bigal ME, Kurth T, Santanello N, et al. Neurology 2010; 74:628–635.



Durante muito tempo a migrânea vem sendo considerada como uma condição que afeta a qualidade de vida, porém sempre foi vista como uma doença simples. É comum ouvirmos o jargão “fique tranqüilo, é uma simples enxaqueca”. Será isto uma verdade? Ou mais um mito a povoar o mundo da cefaléia como muitos outros?

Marcelo Bigal e colaboradores, através de um estudo populacional, recentemente publicado, verificaram a relação entre migrânea e doença cardiovascular. Neste estudo foram avaliados pacientes portadores de migrânea com aura e sem aura e associação com fatores de risco e doenças cardiovasculares e os achados confrontados com uma amostra controle com não portadores de migrânea. O diagnóstico médico dos eventos cardiovasculares era relatado pelos entrevistados e os fatores de risco e o risco incrementado para doenças cardiovasculares através da tabela de Framingham modificada foram computados.

Foi verificado que migrânea com e sem aura é associada com alto risco para infarto do miocárdio e doença arterial periférica e migrânea com aura é associada adicionalmente com acidente vascular encefálico (AVC). Também foi observado que pacientes migranosos eram mais portadores de diabetes, hipertensão arterial sistêmica e altos níveis de colesterol.

Após ajuste para a presença de fatores de risco vasculares eles ainda encontraram um incremento de risco para infarto do miocárdio, AVC e doença arterial periférica em pacientes com migrânea. Isto claramente indica que o incremento de risco de eventos vasculares não pode ser explicado pela alta prevalência de fatores de risco isoladamente suportando a noção de que a função endotelial fora do cérebro também pode estar comprometida em pacientes migranosos.

Limitação do estudo inclui a falta de diagnóstico pelos próprios entrevistadores podendo levar a falsos diagnósticos e a inevitável restrição no número dos fatores de risco avaliados como, por exemplo, contraceptivos e reposição hormonal.

Estes achados reforçam a idéia de que a migrânea pode ser uma doença perigosa mesmo na ausência de outros fatores de risco associados respondendo à pergunta inicial e nos orienta para uma conduta mais agressiva em pacientes migranosos tanto no tratamento como também na pesquisa exaustiva de fatores de risco cardiovasculares associados e que devemos ser mais enfáticos no sentido de que pacientes com migrânea devem levar uma vida mais saudável.


Elder Machado Sarmento








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