Boletim Neuro Atual, Vol. 3, No 6 (2011)

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Boletim Neuro Atual-Resenhas de Trabalhos Científicos em Neurologia

Volume 3 Número 6- 2011



Basilar artery occlusionMattle HP et al. Lancet Neurol, 10: 1002, 2011.


A oclusão da artéria basilar (OAB) é um evento raro, responsável por aproximadamente 1% dos acidentes vasculares encefálicos e por cerca de 8% dos pacientes com isquemia sintomática do território vértebro-basilar.

As causas mais frequentes de OAB são oclusões ateroscleróticas consequentes a trombose local por estenose e oclusões embólicas secundárias a fonte cardiogênica e de grandes vasos. Os estudos com comprovação de OAB por neuroimagem revelam aterosclerose em 26-36% dos pacientes, êmbolos em 30-35%, outras causas (incluindo dissecção das artérias vertebrais) em 6-8% e origem indeterminada em 22-35%. Nos indivíduos jovens, a OAB tem como causa frequente êmbolos ou propagação de uma trombose de uma artéria vertebral com dissecção para a basilar.

A manifestação clínica varia desde sintomas transitórios até eventos devastadores com altos índices de mortalidade e de morbidade e está na dependência da localização da oclusão e do território vascular acometido pela isquemia. As oclusões dos segmentos proximal e médio da artéria basilar resultam em isquemia pontina com hemiplegia ou (mais comumente) quadriplegia. Outros quadros incluem comprometimento da consciência, reflexo plantar em extensão bilateral, disartria, disfagia, paralisia do olhar lateral e comprometimento de outros nervos cranianos. As oclusões do segmento distal acarretam isquemia bilateral do mesencéfalo e tálamo, com disfunções oculomotoras nucleares e supranucleares e pupilomotoras. Os pacientes com envolvimento talâmico estão confusos e amnésticos e os com oclusão da artéria cerebral posterior apresentam hemianopsia ou cegueira cortical.

O quadro conhecido como síndrome do topo da basilar, causada mais frequentemente por oclusão embólica do segmento distal da artéria basilar, é caracterizado por anormalidades visuais, oculomotoras e comportamentais, comumente na ausência de disfunção motora importante.

Um achado característico da OAB é o comprometimento da consciência por envolvimento da formação reticular ascendente que é suprida pelos ramos penetrantes originários da artéria basilar e ramos tálamo-perfurantes das artérias comunicante posterior e cerebral posterior. Surge mais frequentemente pelo envolvimento dos segmentos distais e médios da artéria basilar.

A lesão pontina causa quadriplegia, paralisia facial bilateral, anartria e afagia.

Antigamente, os relatos de OAB eram achados necroscópicos. Entretanto, mesmo após o advento da angiografia, a taxa de sobrevivência após OAB é baixa, com taxa de letalidade superior a 85%. Tem sido relatados índices maiores de sobrevida com a introdução de tratamento trombolítico e técnicas não invasivas de CT e RM. O estudo internacional BASIC tem referido que 41% apresentam quadro isquêmico não tão devastador, independente do tratamento instituído.

Em algumas séries, os pacientes com OAB distal apresentam recuperação funcional melhor que aqueles com oclusão proximal, embora persistam importantes anormalidades neurocomportamentais. Entretanto, essa diferença não foi ratificada em outras séries.

Nos casos de comprometimento agudo do tronco encefálico, a OAB deve ser confirmada ou excluída em caráter de urgência. Quando a OAB for detectada em sua fase inicial, com confirmação por CT ou RM multimodal, a trombólise endovenosa ou a intervenção endovascular deve ser instituída. O objetivo da trombólise é o restabelecimento do fluxo sanguíneo na artéria ocluída e preservação do tecido isquemiado. Entretanto, não está ainda definitivamente esclarecida a melhor modalidade de tratamento para promover o melhor desfecho clínico.


Osvaldo Takayanagui



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Academia Brasileira de Neurologia-São Paulo, Brasil