Boletim Neuro Atual, Vol. 3, No 4 (2011)

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Boletim Neuro Atual- Resenhas de Trabalhos Científicos em Neurologia.

Volume 3, Número 4, 2011



Slow initial β-lactam infusion and oral paracetamol to treat childhood bacterial meningitis: a randomized, controlled trial.” Pelkonen T et al. Lancet Infect Dis, 2011; 11:613-621.


O agente causal mais frequente de meningite bacteriana é o Streptococcus pneumoniae. Cerca de 50% das crianças que desenvolvem meningite pneumocócica falecem e cerca de 60% dos sobreviventes apresentam sequelas, mesmo com os novos antibióticos. A dexametasona atenua a resposta inflamatória do hospedeiro, mas inexiste qualquer estudo que revele benefício clínico importante em crianças.

A efetividade de antibióticos β-lactâmicos depende da duração com que sua concentração plasmática seja mantida em níveis superiores à da concentração inibitória mínima. Por convenção, este medicamento é administrado em bolo, de forma intermitente, a cada 4 -6 horas, mas há questionamentos sobre a adequação deste esquema, pois desencadeia lise maciça de bactérias e libera componentes tóxicos da parede celular na corrente circulatória, promovendo uma reação inflamatória aguda. Uma característica importante dos antibióticos β-lactâmicos é que a administração em doses baixas mata bactérias sem maior degradação e vários estudos têm mostrado que a infusão contínua e lenta é segura e pelo menos tão efetiva quanto a administração intermitente. Contudo, há carência de estudos randomizados, especialmente quanto à infusão contínua desta classe de antibióticos.

O desfecho desse tipo de antibioticoterapia pode ser melhorado com a administração simultânea de um agente anti-inflamatório. Estudos retrospectivos realizados na Finlândia em 809 adultos com bacteremia mostraram resultados melhores naqueles que haviam recebido paracetamol que outros agentes anti-inflamatórios não esteroidais.

O objetivo do presente estudo foi a avaliação do prognóstico de crianças com meningite bacteriana tratadas com infusão lenta de antibióticos β-lactâmicos em adição a paracetamol. O estudo foi prospectivo, randomizado, duplo-cego, controlado com placebo dividindo 723 crianças em 4 grupos: a) cefotaxima infusão + paracetamol; b) cefotaxima infusão + placebo; c) cefotaxima em bolo + paracetamol e d) cefotaxima em bolo + placebo. O antibiótico foi administrado em infusão contínua, de forma lenta, de 2 doses de 125mg/kg a cada 12 h., durante 24 horas, ou 250mg/kg divididas em 4 doses e administradas sob a forma de bolo a cada 6 horas, durante 24 horas. Após as primeiras 24h, todas as crianças receberam 250mg/kg sob a forma de bolo durante 6 dias, exceto aquelas com meningite por Salmonella, para quem a duração foi prolongada para 14 dias. O paracetamol foi dado na dose inicial de 30mg/kg e, a seguir, 20 mg/kg de 6/6horas, por 48 horas, por via oral.

Nas crianças com meningite pneumocócica, o risco de óbito ou de alguma sequela foi menor naquelas tratadas com infusão de cefotaxima+placebo que com a administração em bolo de cefotaxima+placebo. A infusão lenta de cefotaxima, com ou sem paracetamol, foi associada com menor mortalidade no período de 4 a 48 horas que a administração do antibiótico em bolo. Após as 48 horas, no entanto, a taxa de mortalidade se inverteu.

Embora nenhum dos esquemas tenha apresentado efeito benéfico significativo em termos dos desfechos clínicos pré-estabelecidos, a menor frequência de mortalidade nos primeiros 3 dias e de sequelas após o esquema de infusão contínua de cefotaxima nas primeiras 24 horas + paracetamol, justifica a realização de novos estudos sobre o possível benefício da administração inicialmente lenta de antibióticos.


Osvaldo M. Takayanagui




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Academia Brasileira de Neurologia-São Paulo, Brasil